A pergunta que muita gente fez depois da votação foi objetiva: quem vai mandar na Câmara dos Deputados a partir de 2027? A resposta começa na aritmética. Dos 513 deputados federais eleitos no domingo, 4 de outubro, 183 vão exercer o primeiro mandato. Isso dá 35,67% de renovação. Outros 301 foram reeleitos, o equivalente a 58,6% do total. Ainda há 29 políticos que já foram deputados em legislaturas anteriores e agora voltam ao plenário. Ou seja: a Casa muda, mas não vira outra Casa.

Os parlamentares eleitos assumem a 58ª legislatura, que vai de 1º de fevereiro de 2027 a 31 de janeiro de 2031. O detalhe importa porque a Câmara não é só palco de discursos. É ali que passam orçamento, projetos de governo, CPIs, pautas de costumes, mudanças tributárias e disputas sobre emendas parlamentares. Quem tem bancada grande, tem tempo, cargos, relatorias e poder de negociação. Quem entra pulverizado, grita mais do que decide.

O número central é 35,67%, mas ele não conta tudo

A renovação de 35,67% foi apresentada pela Câmara como uma taxa dentro da média recente. Em 2022, a renovação tinha sido de 39,3%. A queda mostra que o eleitor trocou uma parte relevante dos nomes, mas preservou boa parte dos mandatos. Isso derruba duas leituras fáceis: não houve uma explosão de renovação contra todos os políticos, nem uma simples repetição do Congresso anterior.

O dado mais seco é este: 183 deputados federais estreiam no mandato, 301 permanecem por reeleição e 29 voltam depois de terem exercido o cargo em outros períodos. Essa composição cria uma Câmara com gente nova no crachá, mas cercada por estruturas conhecidas. Os estreantes chegam, em muitos casos, já pendurados em máquinas partidárias, federações, lideranças regionais e bolhas digitais. Renovação de CPF não é, automaticamente, renovação de prática política.

RecorteNúmeroLeitura política
Deputados eleitos513Total de cadeiras da Câmara
Primeiro mandato183Renovação de 35,67%
Reeleitos30158,6% continuam no cargo
Ex-deputados que voltam29Experiência política retorna ao plenário
Maior bancadaPL, com 121Partido terá peso central na distribuição de poder

PL cresce e chega à maior bancada

O Partido Liberal elegeu 121 deputados federais, segundo a apuração citada pela Agência Brasil, tornando-se a maior bancada da próxima legislatura. O avanço é de 24 cadeiras em relação à eleição anterior. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, aparece em seguida, com 88 deputados. Logo atrás está a Federação União Progressista, de União Brasil e PP, com 87.

Essa ordem não é detalhe de bastidor. A maior bancada pesa na montagem da Mesa Diretora, na distribuição de relatorias, na ocupação de comissões e na formação de blocos. Uma cadeira isolada vota. Uma bancada grande pauta, bloqueia, negocia e cobra preço. Por isso o número de 121 deputados do PL entra na conta de qualquer governo que precise aprovar projeto relevante a partir de 2027.

A distribuição informada pela Agência Brasil continua com PSD, 43 deputados; Republicanos, 41; MDB, 36; Podemos, 27; PSB, 15; Federação PSOL/Rede, 15; PSDB/Cidadania, 11; Novo, 10; PRD/Solidariedade, 7; PDT, 6; Avante, 5; e Missão, 1. Esse mapa mostra uma Câmara com partidos grandes no topo e várias bancadas pequenas tentando sobreviver por bloco, federação ou negociação caso a caso.

Mulheres crescem, negros recuam e indígenas encolhem

A nova Câmara terá 108 mulheres eleitas, o maior número da história da Casa. A alta é de 18,68% em relação a 2022, quando 91 mulheres foram eleitas. É um avanço numérico relevante, mas ainda insuficiente para chamar a Câmara de equilibrada. Mulheres continuam longe de representar metade do plenário, apesar de serem maioria na população brasileira.

No recorte racial, os eleitos autodeclarados pretos e pardos conquistaram 135 cadeiras, o que corresponde a 26,3% dos 513 deputados. O número representa queda em relação aos 139 parlamentares negros eleitos em 2022. A distância entre candidatura e cadeira também chama atenção: o Tribunal Superior Eleitoral registrou 10.206 candidaturas de pessoas negras para todos os cargos em 2026, 49,64% do total, mas a presença na Câmara segue bem menor do que esse peso na largada da disputa.

A bancada indígena encolheu para três deputados federais. Foram eleitos Paulo Guedes, do PT de Minas Gerais, com 126.891 votos; Juliana Cardoso, do PT de São Paulo, com 111.904 votos; e Sônia Guajajara, do PSOL de São Paulo, com 54.207 votos por quociente eleitoral. Em 2022, cinco indígenas tinham sido eleitos para a Câmara. O número atual equivale a aproximadamente 0,58% das cadeiras, uma presença muito pequena para um país que discute território, mineração, meio ambiente e direitos de povos originários quase todos os anos.

Recordes de votação mostram outro tipo de poder

A eleição também produziu marcas individuais fortes. Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, ultrapassou 3,11 milhões de votos e se tornou, segundo a Agência Brasil, o deputado mais votado da história do país. Ele já tinha sido o mais votado do Brasil em 2022, quando recebeu 1,47 milhão de votos. A nova votação mostra como mandato, rede social e identidade política podem se reforçar até virar uma máquina nacional de votos.

Em segundo lugar entre os mais votados para a Câmara aparece Lucas Pavanato, do PL, com 3.038.438 votos. Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, foi reeleita com 1.596.472 votos e ficou como recordista da bancada feminina. Esses números são importantes porque deputados muito votados chegam com capital político próprio. Eles não dependem apenas do partido. Podem puxar debate, dominar redes e influenciar a pauta pública para além do plenário.

Com 183 estreantes, 301 reeleitos e um PL de 121 cadeiras, a Câmara eleita combina troca de nomes com concentração real de poder.

O ponto prático para o leitor é este: a Câmara terá mais mulheres, menos indígenas eleitos, presença negra abaixo do peso das candidaturas e uma direita partidária com bancada robusta. Isso não define sozinho todas as votações dos próximos quatro anos, mas desenha o terreno. Qualquer presidente, ministro ou líder partidário que queira aprovar agenda terá de lidar com esse tabuleiro. E tabuleiro, em Brasília, vale mais do que discurso de vitória.