A compra de The Weakest Link pela Globo é mais do que uma novidade de programação. É um movimento de defesa e ataque ao mesmo tempo. Defesa porque o Em Família com Eliana precisa de um quadro com regras claras, apelo popular e capacidade de virar conversa fora da TV. Ataque porque a emissora coloca uma apresentadora recém-chegada aos domingos para disputar o terreno dos games, faixa em que Luciano Huck já trabalha há anos com formatos de pergunta, prêmio e tensão ao vivo.

Segundo reportagem do Observatório da TV reproduzida por O Tempo, a Globo adquiriu os direitos do formato britânico criado pela BBC e planeja usar O Elo Fraco como o principal quadro do programa de Eliana a partir de julho. As gravações começam no fim de junho, e a estreia está marcada para 12 de julho. A mesma apuração afirma que a atração terá oito ou nove participantes, perguntas de conhecimentos gerais, rodadas cronometradas, eliminação por voto do grupo e duelo final entre dois competidores.

Por que a escolha faz sentido

O formato tem uma vantagem que a TV aberta valoriza: é simples de entender em menos de um minuto. Um grupo responde perguntas, tenta acumular dinheiro e elimina o participante considerado o elo mais fraco. A dinâmica mistura competição, constrangimento controlado e estratégia social. Isso rende cortes para redes sociais, comentários no dia seguinte e chamadas comerciais fáceis de vender.

Para Eliana, esse tipo de jogo também resolve um problema prático. Um programa dominical de auditório não vive só de carisma, musical e visita de famoso. Ele precisa de blocos fixos que criem expectativa. Quando o público sabe que existe uma disputa, uma eliminação e um prêmio, há um motivo a mais para acompanhar até o fim. É televisão básica, mas funciona justamente por ser básica.

O ponto mais relevante é que a Globo não está testando uma ideia obscura. The Weakest Link é um formato internacional conhecido, com histórico em vários mercados. No Brasil, porém, ele nunca teve uma versão nacional oficial no ar. A reportagem lembra duas tentativas frustradas: Faustão gravou testes em 2002, mas o projeto não avançou; em 2022, Silvio Santos comprou os direitos e iniciou pré-produção no SBT, mas a atração também não chegou à tela.

Fato confirmadoDetalhe
FormatoThe Weakest Link, conhecido como O Elo Fraco
OrigemGame show britânico criado pela BBC
ProgramaEm Família com Eliana, nas tardes de domingo da Globo
GravaçõesPrevistas para o fim de junho
Estreia citada12 de julho de 2026

O incômodo nos bastidores não é detalhe

A chegada do game show também mexe com a geografia interna da Globo. Nos últimos dias, colunas de entretenimento relataram desconforto da equipe do Domingão com Huck com a entrada de um quadro de perguntas e respostas no programa de Eliana. Parte desse ruído vem de comparação direta com o Quem Quer Ser Um Milionário?, um dos pilares mais reconhecíveis de Huck.

É preciso separar fato de espuma. O que está confirmado agora é a compra do formato e o plano de estreia dentro do programa de Eliana. O grau de irritação interna, quem reclamou e o que a direção decidiu pertencem ao campo dos bastidores, dependem de colunistas e não devem ser tratados como anúncio oficial. Ainda assim, o incômodo faz sentido do ponto de vista de grade: dois programas dominicais da mesma emissora com jogos de conhecimento geral podem disputar o mesmo imaginário, mesmo que as regras sejam diferentes.

A Globo provavelmente sabe disso. A emissora não compraria um formato desse tamanho sem calcular o risco de sobreposição. O que pesa a favor de Eliana é a necessidade de fortalecer seu próprio produto. Desde a estreia, o Em Família com Eliana busca uma identidade que não pareça apenas uma extensão genérica de auditório. Um game com nome conhecido, regras duras e eliminação por voto dá ao programa uma espinha dorsal mais definida.

O movimento da Globo é claro: Eliana precisa deixar de ser apenas a novidade contratada e virar dona de um formato reconhecível aos domingos.

O desafio é transformar formato em audiência

Comprar um formato conhecido não garante sucesso. A TV brasileira tem uma longa lista de adaptações internacionais que chegaram com pompa e morreram sem criar hábito. O que vai decidir o resultado é a execução: ritmo de edição, casting dos participantes, tom da apresentadora, valor dos prêmios, uso de humor e capacidade de criar tensão sem parecer crueldade gratuita.

Esse último ponto é delicado. O Elo Fraco nasceu com uma pegada mais ácida, baseada na exposição do erro e na eliminação do participante visto como problema do grupo. Em 2026, esse tom precisa ser calibrado. Se ficar agressivo demais, envelhece mal. Se ficar fofo demais, perde a graça. Eliana terá que ocupar uma faixa difícil: firme o bastante para comandar o jogo, leve o bastante para não transformar o domingo em tribunal.

Também há uma questão comercial. Formatos de game show costumam ser bons para patrocinadores porque permitem naming rights, integração de marcas, provas especiais e chamadas de prêmio. Para uma Globo que tenta proteger a TV aberta enquanto empurra público para o digital, um quadro com cortes fáceis e mecânica repetível é útil. Ele pode render chamada no Gshow, vídeo curto, enquete e repercussão nas redes sem depender de uma grande entrevista toda semana.

O que muda para Eliana

A contratação de Eliana pela Globo foi vendida como uma movimentação grande, mas a fase decisiva começa depois da curiosidade inicial. O público já sabe que ela está na emissora. Agora precisa saber por que deve voltar no domingo seguinte. O Elo Fraco pode ser essa resposta, desde que não seja tratado como acessório dentro de um programa disperso.

Se o quadro funcionar, Eliana ganha um símbolo. Não apenas um bloco de perguntas, mas uma marca própria dentro da grade dominical. Se não funcionar, a compra vira só mais uma tentativa cara de dar forma a um programa que ainda procura uma assinatura. A diferença entre uma coisa e outra estará nos primeiros episódios: se a dinâmica pegar, a conversa muda rápido; se parecer burocrática, o público troca de canal sem cerimônia.

Por enquanto, o fato concreto é este: a Globo apostou em um formato internacional que Faustão e Silvio Santos chegaram a rondar, colocou Eliana como rosto da versão nacional e marcou julho como ponto de virada. Para a apresentadora, é uma chance rara. Para a emissora, é um teste honesto de força nos domingos. E para Huck, mesmo sem disputa declarada, é um recado de que a zona dos games dentro da Globo ficou mais apertada.