A 9ª fase da Operação Compliance Zero saiu do circuito técnico de investigação financeira e entrou de vez na política nacional. Segundo o g1, a Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18) uma etapa da apuração para investigar a participação de agentes públicos em irregularidades envolvendo instituições financeiras. Entre os alvos estão o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, e o banqueiro Augusto Ferreira Lima, dono do Banco Pleno, instituição liquidada pelo Banco Central em fevereiro.

O ponto sensível não é apenas o nome de um parlamentar conhecido. A PF apura se Wagner teria atuado em favor de interesses ligados ao Banco Master no Congresso. A investigação menciona, entre os projetos sob suspeita, a chamada “Emenda Master” e uma proposta que ampliava o limite do crédito consignado. A suspeita dos investigadores, ainda em apuração, é que haveria contrapartidas indevidas ligadas a essa atuação.

De acordo com informações obtidas pela TV Globo e publicadas pelo g1, a investigação mira especialmente a relação entre o senador e Augusto Lima, descrito como aliado de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master. A apuração teria avançado após análise de mensagens encontradas no celular de Augusto Lima. É daí que sai a nova frente da Compliance Zero: menos centrada na engenharia financeira pura, mais focada na possível ponte entre interesses bancários e decisões políticas.

O que a PF cumpre nesta fase

Policiais federais cumprem 18 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos alvos no Distrito Federal, em São Paulo e na Bahia. As ordens foram expedidas pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal. Também há medidas cautelares, como proibição de contato entre investigados e suspensão de passaportes. A própria PF corrigiu uma informação inicial sobre monitoramento eletrônico, que havia sido mencionada no começo da operação.

Os crimes sob apuração podem envolver corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Isso não significa condenação, nem prova final contra os alvos. Significa que a PF afirma ter elementos suficientes para pedir buscas e restrições cautelares, e que o Supremo autorizou a ofensiva. É uma etapa de investigação, mas com impacto político imediato, porque atinge o líder do governo no Senado em meio a um caso que já carrega desgaste econômico e institucional.

A TV Globo procurou a assessoria de Jaques Wagner, mas informou que ainda não havia obtido resposta até a publicação da reportagem. O g1 também afirmou buscar contato com as defesas dos demais investigados. Essa ressalva importa: a operação é pública, os mandados existem, mas as versões dos alvos ainda podem alterar o quadro de explicações políticas e jurídicas ao longo do dia.

As suspeitas envolvendo vantagens indevidas

Segundo o g1, os investigadores suspeitam que Wagner possa ter recebido vantagens indevidas. A lista citada na reportagem inclui um apartamento, repasses que somariam R$ 3,5 milhões por meio de uma empresa ligada a familiares, além de uso de aeronaves e ingressos para shows. São pontos graves, mas ainda tratados como suspeitas dentro do inquérito. O que torna a notícia explosiva é a combinação entre o volume financeiro, o cargo do alvo e a ligação com uma operação que já vinha escalando havia meses.

A tabela abaixo resume os elementos centrais conhecidos até agora, sem transformar suspeita em sentença.

PontoO que foi informado
Operação9ª fase da Compliance Zero
Alvos citadosJaques Wagner e Augusto Ferreira Lima
Mandados18 buscas no DF, em São Paulo e na Bahia
AutorizaçãoMinistro André Mendonça, no STF
Crimes investigadosCorrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro
O caso é politicamente pesado porque não trata só de um banco investigado; trata da suspeita de que interesses desse banco tenham buscado influência dentro do Congresso.

Por que o Banco Master aparece de novo

A Compliance Zero investiga um suposto esquema bilionário de fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça ligado ao Banco Master. A primeira fase foi deflagrada em novembro de 2025, depois de indícios de emissão de títulos de investimento sem garantias suficientes. Naquele momento, a PF estimou prejuízo potencial de até R$ 12 bilhões, e Daniel Vorcaro foi preso.

Desde então, a operação deixou de ser apenas uma investigação sobre produtos financeiros. As fases seguintes ampliaram o foco para suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, intimidação de adversários, espionagem, uso indevido de informações sigilosas e corrupção. A PF também passou a investigar aportes bilionários feitos pelo Banco de Brasília, o BRB, no Master, além de supostos repasses a agentes políticos.

Esse histórico explica por que a nova fase ganhou tração nas buscas. O público já vinha acompanhando o caso Master por causa do tamanho do rombo investigado e da sequência de personagens atingidos. Agora, com um líder do governo no Senado no alvo, a história muda de patamar. A pergunta deixa de ser apenas “o que aconteceu dentro do banco?” e passa a incluir “quem, no sistema político, pode ter ajudado ou se beneficiado?”.

O risco político para o governo

Jaques Wagner não é um senador periférico. É líder do governo Lula no Senado, ex-governador da Bahia e um dos nomes mais experientes do PT. Quando uma operação da PF mira alguém nesse posto, o impacto não fica restrito ao gabinete do parlamentar. A oposição tende a explorar o caso, a base governista precisa calcular defesa e distância, e o Planalto passa a lidar com uma pauta que pode contaminar votações e negociações.

O efeito prático dependerá de duas coisas: o que a PF encontrar nas buscas e como Wagner responderá às suspeitas. Se a defesa apresentar explicações documentadas e a investigação não avançar, o caso pode perder força. Se surgirem novos elementos, a Compliance Zero pode virar uma crise de governo, não apenas uma investigação financeira. É por isso que a notícia tem tanto potencial de tráfego: ela mistura polícia, banco, Congresso, Supremo e governo federal em um mesmo enredo.

Por enquanto, a informação confirmada é a deflagração da nova fase, os alvos, os mandados e a linha geral de investigação. O resto precisa ser tratado com cuidado. O erro, neste tipo de caso, é transformar apuração em condenação antes da hora. O acerto é acompanhar os documentos, as manifestações das defesas e as próximas decisões do STF. O caso Master já mostrou que cada fase abre uma porta nova. A desta quinta-feira abriu a porta mais política até agora.